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INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL | OPINIÃO 40 A (in)sustentável Inteligência Artificial Ana Pires, doutorada em Engenharia do Ambiente, CEO da Dimera A Inteligência Artificial (IA) emerge como uma das mais revolucionárias tecnologias do século XXI. Através da utilização de algoritmos avançados e da análise de grandes volumes de dados (big data), a IA capacita máquinas e programas a aprender, adaptar-se e desempenhar funções de modo automatizado e eficiente. Este avanço tecnológico tem sido crucial na tomada de decisões complexas, transformando diversos setores da sociedade. No que concerne aos desafios da sustentabilidade, a IA tem desempenhado um papel fundamental. Ela é utilizada para prever o consumo de energia, permitindo que as empresas planeiem e otimizem o seu uso, reduzindo picos e custos associados. Já existem sistemas de automação em edifícios que empregam a IA para controlar o consumo de energia em tempo real, ajustando a iluminação, aquecimento e arrefecimento conforme as condições ambientais e de ocupação. Adicionalmente, a IA encontra aplicações na gestão de recursos hídricos e na reciclagem de resíduos. No entanto, a crescente utilização de IA para acelerar esforços e encontrar soluções para desafios comuns requer a análise dos impactes ambientais da IA e das subáreas, assim como das preocupações éticas. No artigo publicado na revista Nature India, Banipal e Mazumder (2024) referem que, caso a IA generativa fosse usada diariamente por todos os habitantes do planeta, a pegada de carbono anual total poderia atingir cerca de 47 milhões de toneladas de CO2eq, contribuindo para um aumento de 0,12 % nas emissões globais. Mas os impactes ambientais não são apenas o aquecimento global. Também a pegada hídrica é um problema a ser considerado. A água que é consumida para arrefecer os centros de processamento de dados (data centres) que alojam os modelos de IA não pode ser reutilizada. No artigo de Li et al. (2023), foi quantificada a quantidade de água consumida por large language models (LLM) como o ChatGPT. Os autores estimaram que eram consumidos 500 mL de água por cada 20-50 consultas, sendo a água perdida diretamente por duas vias: evaporação, devido ao calor, e a descarga de água, à medida que o hardware dos centros de processamento de dados é arrefecido. Indiretamente, também ocorre o consumo de água, nomeadamente pela produção de eletricidade necessária para os centros de processamento de dados funcionarem. Se forem realizadas 105 mil milhões de solicitações diárias, tal corresponde a 383 mil milhões de litros num ano. Este montante é equivalente a sustentar a ingestão anual de água de 328 milhões de pessoas (Li et al., 2023). Para além da pegada do carbono, a IA é responsável pela elevada produção de resíduos de equipamentos elétricos e eletrónicos (REEE). Os centros de processamento de dados têm necessidade de renovar os seus equipamentos com alguma periodicidade, o que obriga à substituição por equipamentos novos e ao encaminhamento dos resíduos produzidos para reciclagem ou aterro. Segundo Wang et al. (2024), os REEE podem alcançar entre 1,2 a 5 milhões de toneladas durante 2020-2030, podendo a quantidade aumentar devido à rápida rotatividade de servidores para reduzir os custos operacionais. Também a área de solo que ocupam é considerável, o que pode impactar a biodiversidade existente na região onde se encontram. O contributo da IA para a vida dos cidadãos também é bastante promissor em vários domínios como a

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