23 EVENTO móvel foi particularmente direto. José Couto, da AFIA, chamou a atenção para a perda de produtividade da Europa face aos Estados Unidos e à China e para um processo de perda de competitividade que, na sua perspetiva, deixou a indústria europeia numa posição de atraso. Pedro Carreira, da Continental, colocou a questão a partir da realidade empresarial. As conjunturas adversas, afirmou, podem ter uma consequência positiva, já que obrigam as empresas a recorrer ao seu “espírito criativo e de inovação”. Para o responsável, a indústria europeia enfrenta ainda uma dificuldade adicional: regula de forma muito exigente aquilo que produz internamente, enquanto concorre com produtos provenientes de geografias sujeitas a regras e estruturas de custos diferentes. A resposta, defendeu, terá de passar pela eficiência: “O que temos de fazer é aumentar a eficiência, mudar os processos, investir em automatização e digitalização, colocar a IA ao serviço da inovação.” Estêvão Silva, da Bosch, explicou como é que a empresa tem vindo a reorganizar- -se para acompanhar a transformação da mobilidade e as alterações geopolíticas. Uma das ideias deixadas pelo responsável foi particularmente reveladora: a China deixou de ser apenas um concorrente e passou também a ser uma fonte de conhecimento. Enquanto isso, considerou, a Europa tem permanecido demasiado tempo à espera para perceber o que irá acontecer. Sobre este tema, Helena Silva, CTO do CEiiA, lembrou que Portugal já conhecia há 25 anos a impossibilidade de competir com a China através dos custos. A resposta encontrada pelo CEiiA foi procurar outro terreno de competição. “Percebemos que a nossa aposta teria de ser na inovação, com novos modelos de negócio, com novas formas de entrar no mercado”, referiu. O projeto BEN é um exemplo dessa abordagem. Desenvolvido pelo CEiiA, o pequeno veículo elétrico procura responder a uma mobilidade em transformação, onde os serviços partilhados e os modelos de utilização em vez de propriedade estão a ganhar espaço. O facto de integrar tecnologia desenvolvida por grandes empresas instaladas em Portugal, como a Continental ou a Bosch, é, segundo Helena Silva, um sinal de evolução da própria indústria nacional, que procura desenvolver produtos capazes de integrar tecnologias e competências de grandes players internacionais. A responsável apontou ainda exemplos de diversificação da atividade do CEiiA para setores como a aeronáutica e o espaço, defendendo que a colaboração entre indústria, centros tecnológicos e academia permitiu construir competências que ultrapassaram o universo automóvel. E é aqui que pode estar a resposta às inquietudes do setor automóvel. As competências acumuladas em materiais, engenharia, eletrónica, produção e desenvolvimento de produto não têm necessariamente de ficar confinadas à mobilidade. Podem ser aplicadas noutras cadeias industriais ‒ e a defesa é uma das que apresenta maior potencial de crescimento. DEFESA: UMA OPORTUNIDADE QUE EXIGE VELOCIDADE O painel dedicado à defesa mostrou que a oportunidade é real, mas também que Portugal terá de fazer escolhas. Ana Reis, da IdD Portugal Defence, resumiu uma das principais preocupações: o aumento do investimento em defesa não deve traduzir-se simplesmente em mais compras ao exterior. É necessário garantir retorno para a indústria nacional através de conhecimento, emprego qualificado e integração das empresas portuguesas nas cadeias de valor dos grandes fabricantes. A recomendação foi apostar em nichos nos quais o país possa construir competências fortes: “Podemos ser bons em muita coisa, mas é preferível sermos muito bons em certas coisas.” Os drones são já um exemplo de uma área em que Portugal começa a obter reconhecimento internacional, segundo a responsável. Mas a oportunidade não se limita aos sistemas completos. Materiais avançados, compósitos, produção avançada, comunicações, digitalização e tecnologias espaciais podem também encontrar aplicações na defesa. O painel dedicado ao futuro da mobilidade automóvel, moderado por José Couto, da AFIA, contou com a participação de Pedro Carreira (Continental), Helena Silva (CEiiA), Estêvão Silva (Bosch) e Gonçalo Tomé (APIP).
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