BP30 - InterPLAST

27 MOBILIDADE de produção. Os primeiros lotes estão a ser fabricados na chamada BEN Garage, uma unidade interna do CEiiA, enquanto se prepara uma estrutura capaz de aumentar a escala produtiva. A dimensão reduzida é apenas uma parte da equação. O conceito desenvolvido pelo CEiiA assenta numa ideia pouco convencional para a indústria automóvel: o utilizador não tem necessariamente de possuir o veículo para o utilizar. O BEN foi pensado para comunidades, condomínios, empresas e operadores, podendo ser adquirido em grupos e partilhado entre diferentes utilizadores. Numa primeira fase, a comercialização está prevista em lotes de, pelo menos, dez unidades. A lógica aproxima-se, em alguns aspetos, dos modelos de partilha já conhecidos nas bicicletas e trotinetes elétricas, mas aplicada a um veículo automóvel. Em vez de vários carros utilizados durante poucas horas por dia, a proposta passa por aumentar a taxa de utilização de cada unidade, articulando diferentes perfis de mobilidade. A plataforma digital assume, por isso, um papel tão importante como o próprio veículo. UMA PLATAFORMA SOBRE QUATRO RODAS É neste ponto que o BEN se diferencia. Segundo Helena Silva, CTO do CEiiA, o projeto foi desenvolvido não apenas em torno da componente física, mas também de uma plataforma digital destinada a gerir a utilização partilhada. O veículo foi pensado para estar permanentemente conectado e preparado para futuras funcionalidades de condução autónoma. O conceito está integrado na visão de mobilidade do CEiiA, que trabalha desde o desenvolvimento automóvel e engenharia de produto até à mobilidade elétrica e aos serviços digitais associados. A própria organização apresenta o BEN como um veículo destinado a integrar um novo serviço de mobilidade, denominado X4US, e a ser industrializado através da BEN4US. Esta combinação entre hardware e software é particularmente interessante do ponto de vista industrial. O automóvel deixa de ser encarado como um produto fechado no momento da venda e passa a funcionar como uma plataforma capaz de gerar serviços ao longo da sua utilização. É uma mudança que aproxima a indústria automóvel de outros setores onde o produto físico é apenas uma componente de uma solução mais ampla. O conceito também introduz uma questão relevante para a indústria transformadora: quanto automóvel é realmente necessário para uma deslocação urbana? O BEN parte de uma resposta minimalista. Dimensões compactas, utilização elétrica, simplicidade e um desenho orientado para a função procuram reduzir a complexidade do produto e, consequentemente, criar condições para uma produção mais acessível. DA ENGENHARIA PORTUGUESA À ESCALA EUROPEIA O percurso do BEN revela igualmente uma relevante ambição industrial. O CEiiA pretende utilizar o projeto para demonstrar a capacidade portuguesa de desenvolver um veículo completo e criar uma cadeia de industrialização associada. A produção inicial é ainda de pequena escala. Em junho, o centro de engenharia indicava estar a fabricar os primeiros lotes de dez unidades e preparava uma futura unidade industrial para atingir centenas de veículos. Foi também estabelecido um acordo com a Micro e a AMFI, fabricantes do Microlino, para produzir o BEN em Turim, Itália. A intenção passa por construir uma rede europeia de produção descentralizada, mantendo Portugal como uma das localizações possíveis. A industrialização será determinante para a concretização de outra meta: atingir volumes que permitam reduzir significativamente o preço do veículo. Em declarações ao podcast Mobi Boom, do Expresso, Helena Silva referiu que, a partir de uma produção de cinco mil unidades por ano, o BEN poderá atingir um preço na ordem dos oito mil euros. O valor é particularmente relevante num mercado onde a eletrificação continua a enfrentar o obstáculo do preço de aquisição. Um veículo urbano pequeno, simples e produzido em volumes suficientemente elevados poderá ocupar um espaço entre a mobilidade individual ligeira e o automóvel convencional. Para a indústria portuguesa de componentes, o projeto representa também um caso interessante de desenvolvimento de produto a partir de engenharia nacional. O CEiiA explica que os parceiros envolvidos no desenvolvimento de sistemas, módulos e componentes deverão participar posteriormente como fornecedores Uma resposta às deslocações urbanas que passa por reduzir a dimensão do automóvel, mas também por repensar a própria relação entre utilizador, veículo e propriedade

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