“Um setor experiente e maduro como o dos plásticos vai, uma vez mais, mostrar que não é parte do problema, mas sim da solução”

Entrevista a Tiago Guimarães Coelho, gerente da AGI

Luísa Santos24/10/2019

Com mais de 100 anos de história, a Augusto Guimarães & Irmão tem sabido manter uma postura dinâmica no mercado nacional e é hoje uma referência ibérica incontornável na distribuição de máquinas, equipamentos e matérias-primas para a indústria de plásticos. Falámos com Tiago Guimarães Coelho, gerente da empresa, para conhecer as novidades em carteira e a sua opinião acerca do futuro do setor.

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A AGI conta com representadas de renome na área dos equipamentos e periféricos para a indústria de plásticos. Que novidades apresentaram essas empresas na edição deste ano da K 2019, a feira de referência para o setor?

A feira K é, definitivamente, uma referência a nível mundial. Acontece apenas a cada 3 anos, pelo que, a cada edição, esperamos sempre uma série de novidades interessantes por parte de todas as nossas representadas. Esta foi a primeira K em que o impacto ambiental esteve na agenda política dos vários países, passando este tema para o topo das agendas. A economia circular, a eficiência e a economia de energia deixaram de ter um carácter meramente económico e passaram a ser um requisito fundamental para grande parte das aplicações. A Rapid apresentou novidades importantes ao nível da reciclagem, nomeadamente na granulação ao pé de máquina. A robótica também desempenha aqui um papel importante. Com robôs cada vez mais acessíveis, a Wemo apostou, por um lado, nos modelos mais pequenos como o 3-5, e, por outro, na nova série X-LINE, que leva a lógica dos robôs mais pequenos aos de maior capacidade. Na Fanuc, de entre outras novidades, destacamos a apresentação, pela primeira vez na Europa, da máquina que leva o menor consumo energético aos transformadores que necessitam de grupos de injeção grandes, como fusos até 100mm de diâmetro.

A indústria 4.0, tal como a ligação de equipamentos via web, ou entre eles, foram também aspetos que mereceram forte atenção. A Piovan lançou alguns aparelhos periféricos novos, com enfoque tanto na eficiência energética como na capacidade de conexão, com a norma EUROMAP 77 finalmente a definir um padrão funcional e abrangente. Na SISE assistimos a uma completa revolução, com modelos novos em todas as áreas de atuação, com especial destaque para o sistema MES completo, que conta com mais capacidades de comunicação e recolha de dados.

A AGI entrou recentemente no mercado dos equipamentos para impressão 3D. Pode contar-nos porque decidiram apostar nesta área?

O processo já tem mais de duas décadas, mas nunca se conseguiu afirmar muito para além da prototipagem. É uma área importante, mas com limitadas capacidades de projeção. Nos últimos cinco anos, assistimos a uma grande evolução, com a entrada de novos ‘players’ no setor, tanto de fabricantes de máquinas como de grandes fabricantes de matérias primas e petroquímicas, que começaram a criar graus especificamente desenvolvidos para este processo. Estes novos materiais trazem consigo, naturalmente, novas possibilidades no que diz respeito à produção de peças funcionais através da impressão 3D. Esta convergência entre a tecnologia das máquinas e das matérias primas levou-nos a acreditar que este é o momento ideal para adicionar esta área à nossa oferta. Fomos a primeira empresa de distribuição de polímeros para processos convencionais a entrar neste setor. Estamos convencidos que a nossa experiência em polímeros e nos requisitos específicos dos diversos setores podem servir parte de um mercado que procura peças funcionais em séries pequenas, ou personalizáveis, de uma forma muito, muito rápida. Não será certamente uma substituição do processo convencional, mas será mais um processo ao dispor da indústria, que lhe pode permitir chegar a novos mercados.

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Equipamentos de manufatura aditiva da representada Raise 3D.

A que outras tendências relacionadas com a transformação de plásticos vamos assistir nos próximos tempos?

É incontornável afirmar que este setor influenciou a humanidade em áreas como a segurança alimentar, segurança médico-hospitalar, economia de energia, entre outras. No entanto, a mesma humanidade, evidentemente, não soube valorizar devidamente este recurso, pelo que os impactos negativos pela forma negligente como o tratamos são agora evidentes. Os próximos tempos vão centrar-se muito na economia circular e no impacto gerado pelo baixo consumo energético. São dois trunfos particularmente fortes para este setor que, para além da dimensão económica, ganham agora uma nova dimensão: a ambiental.

Há muito trabalho a ser feito. Um setor experiente e maduro como este vai, uma vez mais, mostrar não ser parte do problema, mas antes da solução.

Mais uma vez, a tecnologia de equipamentos junto com a das matérias-primas vão ter um papel fundamental. Processos como a reciclagem mecânica ou a repolimeração química vão trazer possibilidades importantes na gestão ambiental e na economia circular.

Também será de esperar desenvolvimentos em materiais de base bio e biodegradáveis ou compostáveis. Esta foi uma área que esteve como que adormecida nos últimos 15 ou 20 anos, mas que agora, com o impulso ambiental para além do económico, já fez surgir desenvolvimentos interessantes, ainda com algumas limitações em termos de aplicação, mas que, acredito, vão continuar a evoluir. Esta não poderá ser uma alternativa à lógica da economia circular, mas um complemento para algumas aplicações especificas. Nesta área, é também importante que os transformadores ou promotores de produtos desta categoria não caiam na tentação de fazer crer algo que não é, desacreditando assim todo o setor.

Como é que a indústria nacional de plásticos está a reagir aos ataques que o material tem vindo a sofrer?

A indústria nacional está a começar a reagir e a adaptar-se a esta tendência, que é global. Para além daquilo que é o processo de cada transformador, o setor está a reagir, apoiando-se finalmente no associativismo e no que os centros de saber podem oferecer por cá. O Plastics Summit 2019, realizado no final de setembro, foi exemplo disso mesmo: muito participado, juntou várias personalidades, tanto da parte do governo, das universidades e dos centros científicos, como das três maiores organizações da distribuição ao consumidor. Temos que continuar a apoiar e promover este diálogo, no interesse de todos.

E como é que as vossas representadas encaram o problema?

Como uma oportunidade. No que diz respeito ao aproveitamento de resíduos pós-industriais temos aqui uma de muitas possibilidades win-win. A crescente atenção dada à reciclagem joga no mesmo sentido que o económico. A utilização de recursos energéticos na produção de bens é uma ferramenta essencial na argumentação contra outros materiais que requerem muitos mais recursos. Aqui, também nos encontramos numa situação win-win em que a redução do consumo energético vai no sentido económico também. A oferta de tecnologias, tanto na área da reciclagem e incorporação de reciclado nos processos, como de economia de energia, são argumentos muito fortes nas nossas representadas. A possibilidade de ganho dos dois lados é evidente, mas, ao mesmo tempo, há mais elementos no processo, pelo que é fundamental que cada um deles funcione bem. Não basta que funcione, tem que funcionar bem.

Que soluções técnicas estão a ser desenvolvidas para aumentar a reciclabilidade dos materiais?

A grande maioria dos termoplásticos são 100% recicláveis desde que foram inventados. É um processo adicional numa unidade de transformação, mas, como referi anteriormente, é uma relação win-win, que deve ser tratada com tanta atenção como a moldação em si. Durante muitos anos, foi negligenciado ou mal visto por muitos clientes finais. Hoje, os principais OEM’s da indústria automóvel preocupam-se em assegurar que os transformadores integram material reciclado em muitas das suas aplicações. Assistimos, em muitos casos, a uma mudança de paradigma.

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Na K 2019, a representada Rapid apresentou a maior inovação em granulação de baixa velocidade em quase duas décadas: o OneCUT PRO, que utiliza o novo sistema Rapid FlexiSPEED e proporciona menos sujidade, menos ruído e uma significativa redução no consumo de energia.

Antigamente, o reciclado só era usado em produtos de baixo valor. Nota que hoje há uma tendência para incorporar reciclado inclusive em peças de qualidade superior?

Evidentemente que sim, como referi anteriormente, há uma mudança de paradigma mesmo na indústria de peças técnicas. A reincorporação de material reciclado está a ir das peças menos exigentes às peças mais técnicas. É uma situação interessante: na maior parte das vezes chegamos à conclusão que a incorporação de reciclado não afeta negativamente a peça ou o processo. De novo, é necessário ter atenção a cada passo do processo e garantir que este funcione bem.

Que papel têm os periféricos neste aspeto? De que forma estes equipamentos podem ajudar na incorporação de maiores taxas de material reciclado?

O processo de incorporação de reciclado é sobretudo efetuado e controlado por periféricos. O objetivo é sempre o de não afetar negativamente a peça e o processo na máquina de injeção. Para o conseguir é fundamental que cada elemento desempenhe bem o seu papel, desde os granuladores aos robôs, sistemas de transporte e de mistura. É aqui que a nossa experiência de integração de sistemas joga um papel importante. Não é muito complicado, apenas tem de ser bem feito.

Como vê o futuro do plástico?

Como mencionei anteriormente, somos parte da solução, não do problema. Até lá chegarmos, há muito trabalho pela frente. A perceção dos utilizadores finais e as decisões políticas vão ter uma incidência particularmente sensível neste setor. É uma ameaça para quem não tiver a cultura ou capacidade de se adaptar, e uma oportunidade para os que tiverem.

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