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Informação profissional para a indústria de plásticos portuguesa

Plástico e sustentabilidade: novos caminhos para uma indústria mais circular

Ana Carolina Soares, Bruna Machado, Luís Silva, Natália Ladeira, Samara Costa e Bruno Silva - Pólo de Inovação em Engenharia de Polímeros (PIEP)*

20/09/2023

Em 1987, o termo ‘Desenvolvimento Sustentável’ foi definido como “satisfazer as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades” [1]. Contudo, a humanidade consome, anualmente, mais recursos naturais do que aqueles que o Planeta Terra consegue regenerar no mesmo período de tempo [2].

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Este impacte é monitorizado através do Earth Overshoot Day que representa o dia em que a humanidade esgota os recursos e passa a viver em défice ecológico até ao final do ano. Em 2022, este dia foi atingido a 1 de agosto e tem vindo a distanciar-se cada vez mais do final do ano, tendo sido Portugal o 6º país que mais recursos consumiu, como se verifica pela Figura 1 e 2, respetivamente [2].

Figura 1 – Earth Overshoot Day ao longo dos últimos anos
Figura 1 – Earth Overshoot Day ao longo dos últimos anos.
Figura 2 – Número de planetas que seriam necessários se a população mundial vivesse como nos países indicados
Figura 2 – Número de planetas que seriam necessários se a população mundial vivesse como nos países indicados.

Com o aumento dos níveis de poluição, das alterações climáticas, das emissões de gases com efeito de estufa, da taxa de pobreza, entre outros fatores de interesse económico, social e ambiental, todos os Estados Membros das Nações adotaram os objetivos presentes na Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável [3] [4].

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), reconhecem que a erradicação da pobreza e de outras privações, devem estar de mãos dadas com estratégias que promovam a saúde e a educação, reduzam as desigualdades e estimulem o crescimento económico, paralelamente ao combate às alterações climáticas e à preservação dos oceanos e florestas, interligando assim os três grandes pilares da sustentabilidade: Económico, Social e Ambiental [4].

Cada ODS conta com várias metas que cada Estado Membro deve cumprir, ou pelo menos, trabalhar para as atingir [4]. No entanto, embora alguns domínios tenham registado progressos, continua a haver uma grande quantidade de objetivos que estão a evoluir muito lentamente ou, até mesmo, a regredir. Mais de 30% dos 140 objetivos que podem ser avaliados não apresentam qualquer progresso ou, ainda pior, uma regressão em relação ao ano-base de 2015, como se verifica na Figura 4 [5].

Figura 3 – Os 17 ODS definidos na Agenda 2030
Figura 3 – Os 17 ODS definidos na Agenda 2030.
Figura 4 – Progresso dos 17 ODS com base nas metas avaliadas
Figura 4 – Progresso dos 17 ODS com base nas metas avaliadas.

De entre todos os ODS aquele que mais se destaca de forma positiva é o G12 – Produção e Consumo Sustentáveis, visto que cerca de 35% das metas já foram cumpridas e mais de 25% apresentam uma perspetiva otimista de realização [5]. Neste contexto, é de salientar o esforço por parte de 62 países e da União Europeia (EU) para a implementação de 485 políticas que apoiam a transição para o consumo e a produção sustentáveis, além do Plano de Implementação para um novo Pacto Climático Global, o Quadro Global da Biodiversidade e a resolução 5/14 da Assembleia das Nações Unidas para o Ambiente, sobre o fim da poluição por plásticos [5].

Outro fator positivo neste contexto é o número de relatórios de sustentabilidade que triplicou, desde 2016, o que demonstra o interesse das empresas em divulgar os seus progressos no âmbito do desenvolvimento sustentável, através do compromisso com os ODS [5, 6]. A perspetiva futura é ainda mais otimista tendo em vista a Diretiva de Relatórios de Sustentabilidade Corporativa (CSRD) 2022/2464, em desenvolvimento pela EU, “que exige que as grandes empresas e as sociedades cotadas publiquem relatórios regulares sobre os riscos sociais e ambientais que enfrentam e sobre o impacto das suas atividades nas pessoas e no ambiente”, que será obrigatório a partir de 2025 [7].

O modelo económico tradicional de take-make-use-dispose apresenta graves impactes no ambiente, uma vez que se centra preferencialmente na produção, não tendo em consideração a importância de uma boa gestão de recursos, bem como a necessidade de gerir a produção de resíduos e de gases com efeito de estufa, sendo, por isso, incapaz de apoiar o desenvolvimento sustentável [8]. Em contraste, a Economia Circular (EC) é um modelo produtivo que envolve a partilha, o aluguer, a reutilização, a reparação, a renovação e a reciclagem de materiais e produtos existentes durante o maior tempo possível, alargando o ciclo de vida dos mesmos [9] e representa um conjunto de ações promissoras e dessa forma, tem recebido especial atenção nos últimos anos. Na EC os resíduos são considerados um recurso que pode ser utilizado para outros ciclos de produção, o que permite uma visão holística da economia, cria resiliência e desenvolvimento sustentável [8].

Sustentabilidade na indústria de plásticos

A indústria do plástico representa uma parcela significativa da economia global, ultrapassando os 300 milhões de toneladas com aplicações em embalagens, sendo utilizado em diversos setores, como o automóvel, aeronáutica, desporto, construção, saúde e dispositivos médicos [10]. O fabrico de plásticos requer quantidades significativas de recursos naturais e energéticos, sendo que cerca de 4% da produção anual de petróleo é diretamente convertida em plásticos [10, 11]. Para além disso, a crescente procura e o descarte inadequado têm-se traduzido num aumento de diversos impactes ambientais negativos como, por exemplo: poluição hídrica e alterações climáticas [10]. Nos últimos anos, a poluição dos plásticos nos oceanos tem sido um tema central, com um aumento do número de estudos e relatórios. Prevê-se que sem uma ação considerável que combata a poluição dos plásticos, o fluxo anual de plásticos para o oceano triplique até 2040, para, aproximadamente, 29 milhões de toneladas por ano [12].

Em média, cada europeu produz aproximadamente 180 kg de resíduos de embalagens por ano. As embalagens são um dos principais utilizadores de materiais virgens, uma vez que, respetivamente, 40 e 50% dos plásticos e do papel utilizado na EU destinam-se a embalagens. Caso a tendência não seja alterada, até 2030, os resíduos de embalagens e de embalagens de plástico na EU, deve aumentar cerca de 19 e 46%, respetivamente [13]. Em resposta à transição para uma economia circular, a EU propôs, em novembro de 2022, novas regras em relação às embalagens. O principal objetivo é reduzir os resíduos de embalagens, melhorar a sua conceção e estimular a transição para plásticos de base biológica, biodegradável e compostável [9].

Para dar resposta a esta problemática, encontra-se em ação, desde outubro de 2018, o Compromisso Global da Nova Economia do Plástico, lançado pela Fundação Ellen MacArthur em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Ambiente. Este Compromisso une empresas, governos e outras organizações de todo o mundo, em torno de uma visão comum de economia circular para os plásticos, na qual estes nunca se convertem em resíduos ou agentes poluidores, captando assim novas oportunidades [14]. Os principais objetivos são a eliminação dos produtos plásticos desnecessários, a inovação para que todo o plástico seja concebido para ser reutilizado, reciclado ou compostável em segurança e a circulação de todo o plástico utilizado para o manter na economia e fora do ambiente [15].

A economia circular é não só essencial para travar a poluição por plásticos, como também oferece benefícios económicos, sociais e ambientais, e contempla, portanto, todos os âmbitos da sustentabilidade [16]. Este tipo de iniciativas permite ultrapassar as limitações das utilizadas atualmente, ao criar um sentido de orientação partilhado, desencadeando uma corrente de inovação e a oportunidade de levar a cadeia de valor dos plásticos a uma espiral positiva, o que por sua vez se traduz numa economia mais forte e com os melhores resultados ambientais [17].

Apesar dos seus impactes negativos, o plástico tem grande relevância em vários dos 17 ODS. É uma indústria responsável pela criação de milhares de oportunidades de emprego, sendo essencial no combate à pobreza (ODS 1). Por sua vez, o acesso ao emprego conduz a acessos à saúde (ODS 3), à igualdade de género (ODS 5), ao trabalho digno e ao desenvolvimento económico (ODS 8), bem como a redução de desigualdades (ODS 10). De acordo com dados referentes ao ano de 2017, as atividades de reciclagem, e reutilização de materiais, foram responsáveis pela criação de 757 000 postos de trabalho, só nos Estados Unidos da América [18].

Em suma, é evidente a importância do plástico na sociedade moderna, no desenvolvimento sustentável e no sucesso da Agenda 2030. No entanto, o plástico não tem apenas prós, mas também alguns contras preocupantes que podem afetar negativamente o ambiente, a sociedade e a economia. Quando descartado de forma inadequada, pode causar problemas socioambientais, sendo necessário educação e um verdadeiro compromisso de todos os setores da sociedade para solucioná-los [18].

O PIEP tem como sua principal missão ser uma entidade de referência na inovação em engenharia de polímeros, missão esta que o move para uma partilha constante de conhecimentos com os seus associados, clientes e parceiros, tendo como mote a necessidade da resolução da problemática dos plásticos, maximizando as suas potencialidades e a sua utilidade na sociedade atual. Assim, tem como foco o desenvolvimento de produtos e processos mais sustentáveis e ecológicos, em parceria com organizações preocupadas com o futuro, tendo em vista a circularidade e a sustentabilidade da sociedade. Destacam-se o desenvolvimento de roadmaps de inovação para a economia circular, desenvolvimento de materiais sustentáveis através da valorização de recursos e resíduos, avaliações de impactos ambientais, económicos e sociais, desenvolvimento de relatórios de sustentabilidade para empresas e organizações, entre outras ações que conectam a inovação, a indústria e a sustentabilidade.

* PIEP – Pólo de Inovação em Engenharia de Polímeros, Universidade do Minho, Campus de Azurém, Ed.15, 4800-058 Guimarães.

Referências

[1] – União Europeia. EUR-Lex. Desenvolvimento Sustentável. Acedido em: 24/07/2023, em: https://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/?uri=LEGISSUM:sustainable_development

[2] – Earth Overshhot Day. Newsroom. Visual. Acedido em: 24/07/2023, em: https://www.overshootday.org/newsroom/visuals/

[3] – Praveen, S., Bokhoree, C., Bekaroo, G., 2023. Business Sustainability Performance: A Systematic Literature Review on Assessment Approaches, Tools and Tecniques. Cleaner Production, vol. 408. https://doi.org/10.1016/j.jclepro.2023.136837

[4] – United Nations. Department of Economic and Social Affairs. Sustainable Development. The 17 Goals. Acedido em: 21/07/2023, em: https://sdgs.un.org/goals

[5] – United Nations. Department of Economic and Social Affairs. Statistics Division. The Sustainable Development Goals Report 2023: Special Edition. Acedido em: 21/07/2023, em: https://unstats.un.org/sdgs/report/2023/

[6] – Subramaniam, N., Akbar, S., Situ, H., Ji, S., Parikh, N., 2023. Sutainable Development Goal Reporting: Contrasting Effects of Institutional and Organisational Factors. Clenar Production, vol. 411. https://doi.org/10.1016/j.jclepro.2023.137339

[7] – União Europeia. EUR-Lex. Documento 32022L2464. Acedido em: 26/07/2023, em: https://eur-lex.europa.eu/legal-content/EN/TXT/?uri=CELEX:32022L2464

[8] – Ho, O. T., Gajanayake, A., Iyer-Raniga, U., 2023. Transitioning to a state-wide circular economy: Major Stakeholder Interviews. Resources, Conservation & Recycling Adances, vol. 19. https://doi.org/10.1016/j.rcradv.2023.200163

[9] – Europien Parliament. Headlines. Economy. Circular Economy: Definition, Importance and Benefits. Acedido em: 24/07/2023, em: https://www.europarl.europa.eu/news/en/headlines/economy/20151201STO05603/circular-economy-definition-importance-and-benefits?&at_campaign=20234-Economy&at_medium=Google_Ads&at_platform=Search&at_creation=RSA&at_goal=TR_G&at_audience=circular%20economy&at_topic=Circular_Economy&at_location=PT&gclid=Cj0KCQjwwvilBhCFARIsADvYi7JlA6uApBz2d5PlfYENasUivTTAM34pGZVJh6ix2DhHPfGpe08bF5AaAqSKEALw_wcB

[10] – Nizzetto, L., Sinha, S., 2020. Top Priority to Curb Plastic Pollution: Empowering Those at the Bottom. One Earth, vol. 2. https://doi.org/10.1016/j.oneear.2020.01.005

[11] – Mwanza, B. G., Mbohwa, C., 2017. Major Obstacles to Sustainability in the Plastic Industry. Procedia Manufacturing, vol. 8: 121-128. https://doi.org/10.1016/j.promfg.2017.02.021

[12] – The Pew Charotable Trusts and SYSTEMIQ. Breaking the Plastic Wave: A Comprehensive Assessment of Pathways Towards Stopping Ocean Plastic Pollution. 2020. https://www.pewtrusts.org/-/media/assets/2020/07/breakingtheplasticwave_report.pdf

[13] - European Comission. Press Corner. European Green Deal: Putting an End to Wasteful Packaging. Acedido em: 24/07/2023, em: https://ec.europa.eu/commission/presscorner/detail/en/ip_22_7155

[14] – Ellen MacArthur Foundation. Our Vision for a Circular Economy for Plastics. Acedido em: 25/07/2023, em: https://ellenmacarthurfoundation.org/plastics-vision

[15] – Ellen MacArthur Foundation. The Global Commitment 2022. Acedido em: 25/07/2023, em: https://ellenmacarthurfoundation.org/global-commitment-2022/overview

[16] – Ellen MacArthur Foundation. Designing out Plastic Pollution. Acedido em: 25/07/2023, em: https://ellenmacarthurfoundation.org/topics/plastics/overview

[17] – Ellen MacArthur Foundation. The New Plastics Economy: Rethinking the Future of Plastics. Acedido em: 25/07/2023, em: https://ellenmacarthurfoundation.org/the-new-plastics-economy-rethinking-the-future-of-plastics

[18] – Sous, F. D. B., 2021. The Role of Plastic Concerning the Sustainable Development Goals: The Literature Point of View. Cleaner and Responsible Consumption, vol. 3. https://doi.org/10.1016/j.clrc.2021.100020

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