Talleres Filsa, S.A.U.
Informação profissional para a indústria de plásticos portuguesa

Inovação entre a pressão sobre o automóvel e a oportunidade da defesa

29/09/2026

A inovação só cumpre o seu propósito quando chega ao mercado, cria emprego qualificado, gera riqueza e reforça a competitividade. Foi esta ideia que atravessou o Innovation Forum, promovido pelo PIEP em Guimarães, onde empresas, academia, centros tecnológicos e entidades públicas discutiram como transformar (mais rapidamente) conhecimento em valor. O conceito de ecossistema de inovação esteve no centro do debate, numa altura em que a indústria automóvel enfrenta fortes pressões competitivas e a defesa abre novas oportunidades para a indústria portuguesa.

A indústria portuguesa conhece bem o valor de trabalhar para grandes cadeias internacionais. O setor automóvel é talvez o exemplo mais evidente: durante décadas, empresas nacionais construíram competências, conquistaram mercados e integraram cadeias de fornecimento globais. Mas o cenário que hoje encontram é substancialmente diferente. A concorrência chinesa, a pressão sobre os custos, a transformação tecnológica e a perda de produtividade europeia estão a obrigar a repensar o caminho.

Ao mesmo tempo, uma nova frente industrial começa a ganhar dimensão. O reforço do investimento europeu na defesa, associado à necessidade de aumentar a autonomia tecnológica do continente, está a aumentar a procura por materiais avançados, sistemas autónomos, eletrónica, digitalização, espaço e produção avançada. Para Portugal, a oportunidade existe, mas não será automática.

Esta dupla realidade foi amplamente debatida da segunda edição do Innovation Forum, realizada a 30 de junho, no Teatro Jordão, em Guimarães, por iniciativa do PIEP. Mais de 200 empresários, representantes da academia, centros de tecnologia e inovação e responsáveis públicos participaram no encontro.

Das vária intervenções sobre estes dois setores, fica a ideia de que em Portugal não faltam competências, conhecimento ou capacidade tecnológica. O desafio está em aproximá-los, acelerar a transformação desse conhecimento em produtos e aumentar a capacidade das empresas portuguesas para competir em mercados onde a velocidade de inovação é cada vez mais determinante.

O Innovation Forum, iniciativa do PIEP, reuniu mais de 200 empresários, representantes da academia...
O Innovation Forum, iniciativa do PIEP, reuniu mais de 200 empresários, representantes da academia, centros de tecnologia e inovação e responsáveis públicos.
A inovação só faz sentido quando chega ao mercado, cria emprego qualificado, gera riqueza e reforça a competitividade da nossa economia.

Automóvel: inovar para continuar a produzir

O diagnóstico apresentado no painel dedicado ao futuro da mobilidade automóvel foi particularmente direto. José Couto, da AFIA, chamou a atenção para a perda de produtividade da Europa face aos Estados Unidos e à China e para um processo de perda de competitividade que, na sua perspetiva, deixou a indústria europeia numa posição de atraso.

Pedro Carreira, da Continental, colocou a questão a partir da realidade empresarial. As conjunturas adversas, afirmou, podem ter uma consequência positiva: obrigam as empresas a recorrer ao seu “espírito criativo e de inovação”.

Para o responsável, a indústria europeia enfrenta ainda uma dificuldade adicional: regula de forma muito exigente aquilo que produz internamente, enquanto concorre com produtos provenientes de geografias sujeitas a regras e estruturas de custos diferentes. A resposta, defendeu, terá de passar pela eficiência: “O que temos de fazer é aumentar a eficiência, mudar os processos, investir em automatização e digitalização, colocar a IA ao serviço da inovação.”

Estêvão Silva, da Bosch, explicou como é que a empresa tem vindo a reorganizar-se para acompanhar a transformação da mobilidade e as alterações geopolíticas. Uma das ideias deixadas pelo responsável foi particularmente reveladora: a China deixou de ser apenas um concorrente e passou também a ser uma fonte de conhecimento. Enquanto isso, considerou, a Europa tem permanecido demasiado tempo à espera para perceber o que irá acontecer.

Sobre este tema, Helena Silva, CTO do CEiiA, lembrou que Portugal já conhecia há 25 anos a impossibilidade de competir com a China através dos custos. A resposta encontrada pelo CEiiA foi procurar outro terreno de competição. “Percebemos que a nossa aposta teria de ser na inovação, com novos modelos de negócio, com novas formas de entrar no mercado”, referiu.

O projeto BEN é um exemplo dessa abordagem. Desenvolvido pelo CEiiA, o veículo integra tecnologia desenvolvida por grandes empresas instaladas em Portugal, como a Continental ou a Bosch, e procura responder a uma mobilidade em transformação, sobretudo nas cidades, onde o automóvel particular enfrenta restrições crescentes e novas gerações revelam menor predisposição para possuir carro. A mobilidade suave, os serviços partilhados e os modelos de utilização em vez de propriedade estão a ganhar espaço. Para Helena Silva, esta transformação obriga a repensar o próprio conceito de automóvel: “Temos de começar a pensar no automóvel como um serviço, que integra tecnologias disruptivas, que possa ser usado por uma rede de pessoas e que se integre com o sistema de serviços dentro das portas da cidade.”

Daí que, na sua perspetiva, a indústria automóvel esteja a transformar-se numa indústria da mobilidade. A componente física terá de ser simples, eficiente e preparada para integrar tecnologia, enquanto o modelo de negócio poderá prolongar-se para além da venda do veículo. 

A responsável apontou ainda exemplos de diversificação para setores como a aeronáutica e o espaço, defendendo que a colaboração entre indústria, centros tecnológicos e academia permitiu construir competências que ultrapassaram o universo automóvel.

É precisamente aqui que a experiência do setor automóvel pode encontrar uma nova etapa. As competências acumuladas em materiais, engenharia, eletrónica, produção e desenvolvimento de produto não têm necessariamente de ficar confinadas à mobilidade. Podem ser aplicadas noutras cadeias industriais ‒ e a defesa é uma das que apresenta maior potencial de crescimento.

O painel dedicado ao futuro da mobilidade automóvel, moderado por José Couto, da AFIA, contou com a participação de Pedro Carreira (Continental)...
O painel dedicado ao futuro da mobilidade automóvel, moderado por José Couto, da AFIA, contou com a participação de Pedro Carreira (Continental), Helena Silva (CEIIA), Estêvão Silva (Bosch) e Gonçalo Tomé (APIP).

Defesa: uma oportunidade que exige velocidade

O painel dedicado à defesa mostrou que a oportunidade é real, mas também que Portugal terá de fazer escolhas.

Ana Reis, da IdD Portugal Defence, resumiu uma das principais preocupações: o aumento do investimento em defesa não deve traduzir-se simplesmente em mais compras ao exterior. É necessário garantir retorno para a indústria nacional através de conhecimento, emprego qualificado e integração das empresas portuguesas nas cadeias de valor dos grandes fabricantes. A recomendação foi apostar em nichos nos quais o país possa construir competências fortes: “Podemos ser bons em muita coisa, mas é preferível sermos muito bons em certas coisas.”

Os drones são já um exemplo de uma área em que Portugal começa a obter reconhecimento internacional, segundo a responsável. Mas a oportunidade não se limita aos sistemas completos. Materiais avançados, compósitos, produção avançada, comunicações, digitalização e tecnologias espaciais podem também encontrar aplicações na defesa.

Carlos Mota, da Beyond Composite, trouxe para o debate a perspetiva de uma empresa que nasceu de uma spin-off da Universidade do Minho e que trabalha com materiais compósitos. O responsável identificou no programa SAFE uma oportunidade para as empresas portuguesas entrarem nas cadeias de valor dos grandes OEM da defesa.

Deu como exemplo as proteções balísticas leves desenvolvidas pela empresa. A evolução dos conflitos e a necessidade de veículos mais móveis estão a criar novas exigências, mas convencer fabricantes tradicionalmente ligados aos metais a adotar materiais compósitos implica demonstrar a sua eficácia. E essa demonstração, explicou, depende também da integração no ecossistema onde estão os grandes fabricantes e decisores.

A defesa apresenta, contudo, uma característica que a distingue de muitas outras áreas industriais: a velocidade a que a tecnologia pode mudar.

Pedro Petiz, da Tekever, foi particularmente incisivo neste ponto. A experiência recente demonstrou que a tecnologia pode evoluir ao mesmo tempo que evolui o próprio conflito, encurtando drasticamente os ciclos de desenvolvimento. “Na defesa, nós não podemos ter um gap de oito anos entre o projeto e o produto final. Nessa altura, a guerra já acabou, a tecnologia já mudou”, frisou. A consequência é uma alteração de mentalidade. Em vez de procurar o produto perfeito, as empresas terão de ser capazes de desenvolver soluções suficientemente boas para responder a uma necessidade concreta e, depois, evoluí-las rapidamente.

Pedro Petiz, da Tekever, colocou a questão da velocidade no centro do debate. A transformação geopolítica dos últimos anos encontrou a Europa pouco preparada e, entretanto, a própria evolução dos conflitos demonstrou que a tecnologia pode mudar ao mesmo ritmo que as necessidades operacionais. A experiência da Ucrânia, referida pelo responsável, tornou particularmente evidente essa aceleração: soluções que hoje respondem a uma necessidade podem tornar-se obsoletas num espaço de tempo muito curto.

Esta realidade colide com os ciclos tradicionais de desenvolvimento e aquisição na defesa. “Na defesa, nós não podemos ter um gap de oito anos entre o projeto e o produto final. Nessa altura, a guerra já acabou, a tecnologia já mudou.” Para Pedro Petiz, a resposta passa por uma mudança de mentalidade: é necessário desenvolver soluções de forma mais ágil, testar, adaptar e voltar a desenvolver, em vez de procurar desde o início um produto acabado e definitivo. “Não existe o produto perfeito. Existe um produto que tem um conjunto de características, que suprime uma necessidade e que amanhã essa necessidade pode mudar.”

A oportunidade para Portugal depende, por isso, não apenas da existência de financiamento ou de competências tecnológicas, mas da capacidade de transformar esses recursos em soluções com rapidez. Pedro Petiz considera que o país já dispõe de vários dos ingredientes necessários - talento, capital, acesso a clientes e alguns ecossistemas industriais. A questão, defendeu, é decidir avançar. “Corremos o risco de andarmos demasiado tempo a pensar e pouco tempo a fazer. (...) Podemos passar muitas horas a discutir como é que os ecossistemas funcionam, mas isso não substitui a tomada da decisão de ir a jogo.”

O responsável da Tekever chamou ainda a atenção para a necessidade de uma visão estratégica à escala nacional. Portugal tem competências em determinadas áreas, mas precisa de definir onde quer estar e de agregar os diferentes atores em torno dessas áreas. No caso dos drones, por exemplo, a existência de várias empresas demonstra que há talento e capacidade para crescer, mas não garante, por si só, uma posição sustentável num mercado internacional altamente competitivo.

Essa capacidade de agregação será particularmente importante porque o mercado da defesa apresenta barreiras de entrada elevadas e assenta fortemente na confiança entre empresas e Estados. Para Pedro Petiz, um ecossistema eficaz deve conseguir transformar talento e conhecimento em valor, juntando grandes empresas, PME, centros de investigação e universidades. A resposta terá de assentar numa rede suficientemente flexível para acompanhar uma tecnologia que muda mais depressa do que os tradicionais ciclos industriais.

Pedro Petiz, da Tekever, Carlos Mota, da Beyond Composite, Raul Lourenço do AED Cluster, e Ana Reis, da IdD Portugal Defence...

Pedro Petiz, da Tekever, Carlos Mota, da Beyond Composite, Raul Lourenço do AED Cluster, e Ana Reis, da IdD Portugal Defence, debateram as oportunidades e especificidades da indústria da defesa. O painel foi moderado por Carlos Ribeiro, do PIEP.

Esta lógica é relevante também para a indústria de plásticos e compósitos. Materiais que possam combinar baixo peso, resistência mecânica, proteção, durabilidade ou funcionalidades específicas podem encontrar novas aplicações em veículos, aeronaves, sistemas autónomos ou equipamentos militares. Mas será a capacidade de desenvolver, testar e industrializar rapidamente que determinará a possibilidade de transformar investigação em negócio.

Raul Lourenço, do AED Cluster, acrescentou uma perspetiva de mais longo prazo. Para o responsável, Portugal não pode limitar-se a esperar que as necessidades sejam definidas pelas forças armadas ou pelos ministérios. O próprio ecossistema empresarial e científico deverá ajudar a identificar, antecipadamente, as áreas tecnológicas onde o país quer construir competências.

Entre esas áreas apontou os materiais avançados, que poderão ter um papel diferenciador nos equipamentos que serão desenvolvidos nos próximos anos. Alertou, no entanto para a importância de, “desde a fase da investigação, ter em mente a componente de internacionalização”, já que o mercado nacional de defesa não terá dimensão suficiente para sustentar sozinho modelos de negócio robustos. As empresas terão de nascer ou crescer já com uma ambição internacional.

O ecossistema como infraestrutura de competitividade

Se os painéis sobre automóvel e defesa mostraram onde estão as pressões e as oportunidades, o debate sobre os ecossistemas de inovação ajudou a explicar o que é necessário para responder a ambas.

Na sua intervenção, Marlos Silva, da MC/Sonae, defendeu que a relação entre empresas e entidades de conhecimento deve ser mais permeável e menos baseada numa lógica convencional de transferência de tecnologia. “A tecnologia e o conhecimento, não se transferem, partilham-se”, disse. O responsável defende, assim, a co-inovação e o co-desenvolvimento. Na sua opinião, empresas, academia, centros tecnológicos e outros parceiros devem trabalhar conjuntamente na resolução de problemas concretos.

João Ricardo Moreira, da NOS, acrescentou duas condições: diálogo franco e alinhamento de incentivos. Não basta reunir os diferentes atores algumas vezes por ano. É necessário manter uma relação continuada e perceber o que cada interveniente procura. O diagnóstico que apresentou é particularmente relevante para a indústria portuguesa: o país possui conhecimento, infraestruturas, talento e capacidade produtiva, mas nem sempre consegue transformar esses ativos em aplicações e negócios com escala internacional.

Já José Carlos Caldeira, do INESC TEC, colocou a questão de outra forma. Um ecossistema só funciona quando existe um objetivo comum capaz de mobilizar os seus participantes. Depois são necessários estratégia, plano de ação, recursos humanos e financeiros e, sobretudo, resultados.

No caso dos materiais, deu um exemplo que toca diretamente a indústria dos plásticos. Os requisitos associados à circularidade e ao conceito europeu ‘safe and sustainable by design’ obrigam hoje a pensar no material ao longo de todo o seu ciclo de vida, envolvendo quem o desenvolve, quem o transforma, quem utiliza o produto e quem o recicla. O ecossistema torna-se, assim, maior e mais complexo. E também mais próximo da realidade industrial.

Por seu lado, António Cunha, da Universidade do Minho, reforçou a centralidade das empresas. Num ecossistema de inovação, explicou, é no tecido empresarial que o conhecimento se transforma em valor económico. Cabe às empresas identificar e especificar os problemas que precisam de resolver, estabelecendo uma ligação mais concreta com as estruturas de I&D. Esta relação exige também confiança entre os diferentes atores. E exige tempo. O problema é que a velocidade tecnológica está a diminuir esse tempo disponível.

O último painel do dia, dedicado ao tema ‘Ecossistemas de Inovação para uma Economia mais Competitiva’, foi moderado por António Vicente...
O último painel do dia, dedicado ao tema ‘Ecossistemas de Inovação para uma Economia mais Competitiva’, foi moderado por António Vicente, da Universidade do Minho, e contou com as intervenções de Marlos Silva (MC/Sonae), João Ricardo Moreira (NOS), José Carlos Caldeira (INESC-TEC), e António Cunha (Universidade do Minho).

Da competência à capacidade de execução

O Innovation Forum deixou uma conclusão transversal aos diferentes debates: Portugal não parte do zero. Para Cláudia Cristovão, diretora-geral do PIEP, o país "possui hoje um ecossistema de inovação de excelência, combinando empresas exportadoras, universidades de excelência, centros de tecnologia e inovação e capacidade industrial. O desafio passa agora por transformar este potencial em maior competitividade, mais investimento e mais valor para a economia nacional.”

No automóvel, isso significa responder à pressão competitiva através de produtividade, automação, digitalização, inteligência artificial e desenvolvimento de produtos de maior valor acrescentado. Na defesa, significa identificar nichos, acelerar ciclos de inovação, integrar cadeias de valor internacionais e aproveitar competências que já existem no país. E, em ambos os casos, significa trabalhar melhor enquanto ecossistema.

A própria mensagem de abertura do PIEP apontou nessa direção. Nuno Guimarães defendeu que a inovação já não pode ser encarada apenas como fator de diferenciação, mas como uma condição para produtividade, emprego qualificado, sustentabilidade e desenvolvimento económico.

A defesa poderá abrir novas portas à indústria portuguesa. O automóvel continuará a exigir capacidade para se reinventar. Entre ambos está uma competência que Portugal terá de saber valorizar: a capacidade de transformar conhecimento em tecnologia industrial, e tecnologia industrial em produtos capazes de competir no exterior.

É nesse ponto que inovação deixa de ser apenas investigação. Passa a ser capacidade de execução.

Cláudia Cristovão lembrou que “Portugal possui hoje um ecossistema de inovação de excelência”
Cláudia Cristovão lembrou que “Portugal possui hoje um ecossistema de inovação de excelência”.

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