www.interplast.pt 2026/2 29 Preço:11 € | Periodicidade: 4 edições por ano | Abril, Maio, Junho 2026
PORTUGUÊS: Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, ... ESPANHOL: Espanha, México, EUA, Argentina, Colômbia, Chile, Venezuela, Peru, ... ACEDA AO MERCADO LUSO-ESPANHOL DA INDÚSTRIA DE PLÁSTICOS O GRUPO EDITORIAL IBÉRICO DE ÂMBITO INTERNACIONAL INTEREMPRESAS MEDIA - ESPANHA Tel. +34 936 802 027 comercial@interempresas.net www.interempresas.net/info INDUGLOBAL - PORTUGAL Tel. (+351) 215 935 154 geral@interempresas.net www.induglobal.pt
SUMÁRIO Edição, Redação e Propriedade INDUGLOBAL, UNIPESSOAL, LDA. Avenida Defensores de Chaves, 15, 3.º F 1000-109 Lisboa (Portugal) Telefone (+351) 215 935 154 E-mail: geral@interempresas.net NIF PT503623768 Gerente Aleix Torné Detentora do capital da empresa Grupo Interempresas Media, S.L. (100%) Diretora Luísa Santos Equipa Editorial Luísa Santos, Esther Güell, Nerea Gorriti Marketing e Publicidade Frederico Mascarenhas redacao_interplast@interempresas.net www.interplast.pt Preço de cada exemplar 11 € (IVA incl.) Assinatura anual 44 € (IVA incl.) Registo da Editora 219962 Registo na ERC 127297 Depósito Legal 455414/19 Distribuição total +2.000 envios. Distribuição digital a +1.300 profissionais. Tiragem +700 cópias em papel. Edição Nº 29 - Abril, Maio, Junho 2026 Estatuto Editorial disponível em https://www.interplast.pt/EstatutoEditorial.asp Impressão e acabamento Lidergraf Rua do Galhano, n.º 15 4480-089 Vila do Conde, Portugal www.lidergraf.eu Os trabalhos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. É proibida a reprodução total ou parcial dos conteúdos editoriais desta revista sem a prévia autorização do editor. A redação da InterPLAST adotou as regras do Novo Acordo Ortográfico. ATUALIDADE 4 EDITORIAL 5 Entrevista com Alicia Martín, diretora-geral da Plastics Europe Ibéria 10 Reciclabilidade das embalagens continua dependente de falhas no sistema 12 PPWR: Estará a cadeia de valor preparada? 16 PPWR, um caminho definido para as embalagens, mas com muitas questões em aberto 20 IA pode revolucionar a circularidade dos plásticos, mas há obstáculos a ultrapassar 22 PackWAI: IA ao serviço de embalagens biodegradáveis 26 Sustentabilidade e rotulagem: a transformação das embalagens na Danone em Portugal 28 Embalagens de plástico para bebidas estão mais leves e circulares 30 Folhadela Rebelo reforça aposta no mercado PET com soluções para aumentar a eficiência e a incorporação de reciclado 34 Netstal apresenta solução IML de alto desempenho para embalagem 38 Inovação em cápsulas de café em plástico: solução em PP monomaterial e estratégias para a circularidade 40 Entrevista com Xavier Pascual, diretor da Equiplast 2026 46 Douma na Equiplast 2026: uma trajetória que fala por si 50 Imvolca reforça presença internacional nas principais feiras europeias de plásticos 52 Preço dos polímeros virgens impulsiona 'retrofit' nas linhas de reciclagem 54 Refrigeração industrial ganha novo peso na transformação de plásticos 56 Sopro de PET: soluções de aluguer de equipamentos de alta pressão 'oil free' 60 Mercado global de aditivos cresce impulsionado pela indústria de plásticos 62 Tendências globais em robótica impulsionam nova vaga de automação industrial 64
4 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.INTERPLAST.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER RadiciGroup e Domo criam novo operador global de compostos A conclusão da aquisição da Domo Engineered Materials pela Lone Star Funds marca a criação de uma nova plataforma global de compostos de engenharia, através da integração daquela divisão do Grupo Domo na área de High Performance Polymers & Specialty Chemicals da RadiciGroup. ‘Volta’ abre novas oportunidades para recicladores e transformadores de plásticos em Portugal O novo sistema de depósito e reembolso de embalagens de bebidas, identificado pela marca Volta, entrou em funcionamento em Portugal no passado dia 10 de abril, introduzindo um modelo que poderá transformar o acesso da indústria de reciclagem e transformação de plásticos a matéria-prima reciclada de elevada qualidade. O sistema abrange garrafas de plástico e latas de metal e alumínio até três litros. O sistema prevê o pagamento de um depósito de dez cêntimos no momento da compra, valor que é reembolsado ao consumidor aquando da devolução da embalagem. Com cerca de 2.500 pontos de recolha já instalados e previsão de ultrapassar os três mil nos próximos meses, a infraestrutura foi concebida para garantir rastreabilidade individual e reciclagem em circuito fechado. Para os recicladores portugueses, o principal benefício está na criação de um fluxo dedicado de resíduos, mais limpo e homogéneo, permitindo melhorar a qualidade do material reciclado e aumentar a disponibilidade de polímeros reciclados aptos para aplicações de maior valor acrescentado, incluindo novas embalagens alimentares. Também os transformadores de plásticos poderão beneficiar de maior acesso a matéria-prima reciclada com qualidade consistente, num contexto em que a pressão regulatória europeia e as metas de incorporação de reciclado continuam a aumentar. O objetivo do sistema passa por atingir uma taxa de recolha de 90% destas embalagens até 2029. A nova organização combinará marcas consolidadas, competências industriais e capacidade técnica, reforçando a presença internacional em mercados como automóvel, elétrico e eletrónico, construção, bens de consumo e aplicações industriais. O objetivo é acelerar a inovação em materiais de engenharia e responder às crescentes exigências de sustentabilidade e desempenho no segmento dos plásticos técnicos. A operação permitirá criar uma estrutura com maior escala e resiliência industrial, tirando partido de competências complementares nas áreas de poliamidas de engenharia, compostos técnicos e especialidades químicas. A marca Technyl continuará a integrar o portefólio da nova entidade, assegurando continuidade junto dos clientes globais. Jochen Fabritius foi nomeado CEO da plataforma combinada. O responsável sublinhou que a prioridade será garantir estabilidade operacional e relações de longo prazo com clientes e parceiros, mantendo equipas técnicas, know-how e soluções já implementadas no mercado. A consolidação reflete a tendência de concentração no setor europeu dos polímeros de engenharia, num contexto de crescente pressão sobre eficiência, inovação e sustentabilidade.
5 Empresa alemã inaugura fábrica para produzir substitutos naturais do plástico A empresa alemã Traceless Materials, especializada no desenvolvimento de materiais de origem natural, inaugurou a 13 de maio a sua primeira unidade industrial de produção em larga escala, localizada em Hamburgo-Harburg, na Alemanha. A fábrica processa resíduos vegetais da indústria agrícola para criar um material destinado a substituir plásticos convencionais em diferentes aplicações industriais. Segundo informação divulgada pela empresa, a instalação representa um passo na expansão da sua tecnologia patenteada de polímeros naturais termoplásticos. O material desenvolvido pode ser utilizado em produtos descartáveis, embalagens, revestimentos de papel e adesivos, especialmente em aplicações onde a reciclagem técnica é mais difícil ou em que os produtos acabam frequentemente no ambiente. A tecnologia da empresa utiliza polímeros naturais presentes em resíduos vegetais, sem alterar a sua estrutura química natural. Os granulados obtidos são descritos como sendo de base biológica, compostáveis em ambiente doméstico e compatíveis com tecnologias industriais convencionais de processamento. Entre os clientes referidos pela empresa encontram-se a fabricante de papel e embalagens Mondi, a empresa de comércio eletrónico Otto e a distribuidora Biesterfeld. Cerimónia de inauguração em frente à nova unidade de produção, com a equipa responsável pela entrada em funcionamento da instalação e convidados. Foto: Jonas Walter. EDITORIAL A revista que tem em mãos, ou no seu ecrã, é quase inteiramente dedicada a um só tema: a embalagem de plástico. Com as nossas desculpas a quem não trabalha este segmento, a aproximação da data de implementação da nova diretiva europeia PPWR a isso obriga. Com entrada em vigor prevista para 12 de agosto deste ano, o documento impõe regras de reciclabilidade, reutilização e incorporação de plástico reciclado nas embalagens a todos os Estados-membros da UE. Em 2030, apenas poderão ser comercializadas embalagens concebidas para reciclagem e com requisitos mínimos de conteúdo reciclado, metas que serão reforçadas até 2040. O regulamento limita também o peso, volume e espaço vazio das embalagens, proíbe determinados formatos descartáveis e introduz rotulagem harmonizada para facilitar a triagem. A partir de 2035, as embalagens terão ainda de comprovar reciclagem efetiva em larga escala na UE. Tudo isto numa altura em que, segundo a Plastics Europe, o crescimento anual da produção de plásticos circulares na Europa caiu de 13,6% em 2022 para apenas 1,2% em 2024. Paradoxal, se considerarmos que a Europa continua a enviar para aterro ou incineração a maior parte dos resíduos plásticos. Simultaneamente, cresce o descontentamento dos fabricantes de embalagem perante as dificuldades em obter reciclado de qualidade a preços razoáveis. Para trazer alguma clareza ao setor, neste número damos voz a especialistas no assunto, como Alicia Martín, diretora-geral da Plastics Europe Ibéria, Margarida Alves, diretora do Centro Nacional de Embalagem (CNE) e os intervenientes no debate sobre o tema, que decorreu na última Empack. Contamos-lhe também como é que a IA, os sistemas gravimétricos ou os aditivos disponíveis no mercado podem ajudar os recicladores e transformadores a alcançar os objetivos europeus. Não será tarefa fácil, mas nesta fase todas as ajudas contam. Entre os desafios que assolam o setor está também o elevado custo da energia. Numa indústria com processos que dependem de oscilações extremas de temperatura, este é um daqueles problemas que pode ‘fazer mossa’. Por isso, equipamentos como os sistemas de refrigeração deixaram há muito de ser apenas auxiliares, para passarem a ser vistos como um aspeto a otimizar. Na página 56 abordamos em pormenor este tema. Uma nota final para a entrevista ao diretor da Equiplast 2026, Xavier Pascual. A feira, que tem a ambição de se tornar “a grande montra da transformação sustentável da indústria dos plásticos e da borracha no sul da Europa”, realiza-se de 2 a 5 de junho. Nós vamos lá estar. Se passar por Barcelona, visite-nos no stand da Interempresas Media (Pavilhão 3, stand A71). Até lá, boa leitura! PPWR: estamos preparados?
6 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.INTERPLAST.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER Gaia BioMaterials obtém patente europeia para bioplásticos sem PLA A sueca Gaia BioMaterials recebeu a confirmação definitiva da patente europeia para uma nova gama de materiais biodegradáveis e compostáveis destinados à extrusão de filme, desenvolvidos sem recurso a ácido polilático (PLA). Plastics Europe alerta para abrandamento “dramático” da economia circular dos plásticos na Europa A associação europeia Plastics Europe alerta para um “abrandamento dramático” da transição europeia para uma economia circular dos plásticos, num contexto marcado pela perda de competitividade industrial, aumento dos custos energéticos e maior dependência de cadeias de valor externas. As conclusões constam do relatório ‘The Circular Economy for Plastics: A European Analysis’, que analisa os dados de 2024 sobre produção, consumo, reciclagem e gestão de resíduos plásticos na Europa. Segundo o estudo, o crescimento anual da produção de plásticos circulares na Europa caiu de 13,6% em 2022 para apenas 1,2% em 2024, atingindo 8,7 milhões de toneladas, equivalentes a 15,8% da produção total. Em contraste, o crescimento anual da produção global de plásticos circulares acelerou de 5% para 7,7%. A procura de plásticos circulares por parte dos transformadores europeus também desacelerou de 16,2% para 4%. O relatório destaca ainda a crescente dependência europeia de importações, tanto de materiais reciclados como de plásticos de origem fóssil (25% da procura dos transformadores europeus foi coberta com importações extracomunitárias, enquanto 12,4% dos resíduos recolhidos na Europa foram reciclados noutras regiões). No que respeita aos materiais reciclados, este contexto é ainda mais relevante, já que apesar de, em 2024, a taxa de reciclagem ter aumentado para 29,6%, mais de 70% dos resíduos plásticos recolhidos foram encaminhados para incineração (16,0 Mt, 48,9%) ou aterro (7,0 Mt, 21,5%). Rob Ingram, presidente da Plastics Europe e CEO da Ineos Olefins & Polymers Europe, considera “profundamente preocupante” o abrandamento da transição europeia para a economia circular, e alerta que os fabricantes de plásticos europeus estão “em modo de sobrevivência” devido aos elevados custos da energia, matérias-primas e emissões. Segundo o responsável, “estamos a assistir à descarbonização da Europa através da desindustrialização”, advertindo que, sem uma inversão desta tendência, a Europa não conseguirá cumprir as suas metas climáticas. Para a associação, será necessária legislação mais favorável ao investimento, energia mais competitiva e medidas que estimulem a procura por plásticos circulares, sob pena de a Europa perder liderança industrial e tecnológica no setor. A tecnologia reforça a aposta da empresa em soluções flexíveis para embalagens e aplicações descartáveis sustentáveis. A patente, submetida em 2020, abrange compostos formulados a partir da combinação de polímeros biodegradáveis e minerais, eliminando a utilização de PLA, um dos materiais mais comuns na produção de bioplásticos. Segundo a empresa, os materiais já estão a ser utilizados em aplicações como sacos de compras, embalagens para fruta e legumes, sacos para resíduos e aventais médicos descartáveis. A empresa adianta ainda que existem novas aplicações em fase de desenvolvimento, numa altura em que o setor europeu dos bioplásticos procura alternativas mais eficientes e competitivas para responder às crescentes exigências ambientais e regulatórias.
7 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.INTERPLAST.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER Guztec Polymers e AGI levam soluções para circularidade, automação e eficiência à Equiplast 2026 A AGI – Augusto Guimarães & Irmão e a Guztec Polymers participam na próxima edição da Equiplast conjuntamente, como Premium Partners, reforçando o seu posicionamento como parceiros técnicos no seio do Grupo Hromatka. No stand conjunto (3C52), a Guztec destacará materiais e compostos destinados a responder aos desafios da circularidade, redução da pegada carbónica e conformidade regulatória. Entre as soluções em destaque estarão as poliolefinas Sabic Trucircle, as poliamidas recicladas Technyl 4Earth da Domo Chemicals e materiais PFAS-free para aplicações de extrusão e elétrico-eletrónicas. A empresa apresentará ainda materiais de elevadas prestações para aplicações técnicas exigentes, incluindo compostos reforçados da Avient, soluções da Evonik e polímeros PEEK da Victrex, bem como tecnologias da Ampacet para embalagens mais recicláveis e leves. Já a AGI irá demonstrar a máquina de injeção elétrica Fanuc Roboshot α S220iB, soluções de automação Wemo, o moinho Rapid série 600 para reciclagem e sistemas de controlo e monitorização da SISE. A empresa terá também uma área dedicada à impressão 3D industrial com equipamentos Raise3D e MiniFactory. Governo prepara estudo sobre reciclagem de plásticos agrícolas O Ministério do Ambiente e Energia vai avançar com um estudo técnicocomparativo sobre os modelos europeus de gestão de plásticos agrícolas, com o objetivo de identificar soluções mais eficientes para a recolha, reciclagem e valorização destes resíduos em Portugal. O trabalho será desenvolvido pela Agência Portuguesa do Ambiente, em articulação com o Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral, incidindo sobre resíduos como películas agrícolas, filmes, tubos e redes utilizados na atividade agrícola. Segundo anunciado, o estudo irá analisar diferentes sistemas europeus de organização e financiamento, incluindo modelos de responsabilidade alargada do produtor, soluções de recolha e armazenamento, redução da contaminação e incorporação de materiais reciclados. A iniciativa pretende responder aos principais desafios associados à gestão deste fluxo de resíduos, nomeadamente os elevados custos logísticos, a dispersão territorial das explorações agrícolas e as dificuldades de valorização dos materiais. O objetivo passa por reduzir os custos suportados pelos agricultores, aumentar as taxas de reciclagem e reforçar a circularidade no setor agrícola, em linha com as metas definidas no Plano Estratégico para os Resíduos Não Urbanos 2030 (PERNU 2030). O relatório preliminar deverá ser entregue até julho de 2026, estando a versão final prevista para setembro do mesmo ano.
8 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.INTERPLAST.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER Relatório defende metas obrigatórias para plásticos de base biológica na Europa Um estudo científico do nova-Institute, desenvolvido para a Comissão Europeia no âmbito do futuro Regulamento das Embalagens e Resíduos de Embalagens (PPWR), conclui que os plásticos de base biológica estão tecnologicamente maduros e podem desempenhar um papel relevante na descarbonização da indústria europeia dos plásticos. Coscollola Engineering reforça posicionamento no setor da reciclagem na PRSE 2026 A Coscollola Engineering faz um balanço positivo da sua participação na PRSE 2026 – Plastics Recycling Show Europe, realizada nos dias 5 e 6 de maio, na RAI Amsterdam, onde apresentou soluções de engenharia para manuseamento de sólidos aplicadas à reciclagem de plásticos. Presente no stand M24, a empresa destacou a sua capacidade para desenvolver soluções de processo à medida, adaptadas às necessidades específicas de cada instalação industrial. Durante o certame, a equipa recebeu transformadores, empresas de engenharia e profissionais do setor interessados em otimizar processos de reciclagem e melhorar a eficiência das linhas produtivas. Segundo a empresa, a crescente variabilidade dos materiais reciclados exige instalações cada vez mais flexíveis e tecnicamente ajustadas, capazes de garantir estabilidade de processo, controlo e continuidade produtiva. A Coscollola Engineering apresentou uma abordagem integrada que abrange receção, armazenamento, transporte, dosagem, mistura e automação, tendo em conta fatores como granulometria, densidade, rastreabilidade, limpeza e manutenção. A participação na PRSE permitiu ainda reforçar contactos e identificar novas oportunidades num mercado cada vez mais orientado para soluções técnicas personalizadas e processos industriais mais eficientes e sustentáveis. Da esquerda para a direita: Ivan Mañé, engenheiro comercial da Coscollola Engineering; Ricardo Coscollola, CEO do Grupo Coscollola e Marco Patruno, responsável de Engenharia e subdiretor da Coscollola Engineering. Segundo a análise, apesar de os polímeros de origem biológica representarem apenas cerca de 1% do mercado global, já existem 17 materiais comercialmente disponíveis sem barreiras técnicas significativas à sua utilização em embalagens. O relatório destaca ainda o potencial destes materiais para reduzir emissões de gases com efeito de estufa e defende a criação de metas vinculativas para acelerar a sua adoção. O estudo sublinha que a política europeia deve reconhecer a complementaridade entre reciclagem e matérias-primas renováveis: enquanto a reciclagem mantém o carbono existente em circulação, os materiais de base biológica introduzem carbono não fóssil no sistema. Apesar da maturidade tecnológica, o crescimento do setor continua condicionado por custos elevados, limitações de infraestrutura e falta de incentivos regulatórios. O nova-Institute recomenda, por isso, investimento em reciclagem e processamento, bem como critérios harmonizados de sustentabilidade e políticas que incentivem a incorporação de matérias-primas renováveis na indústria das embalagens.
9 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.INTERPLAST.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER Pacto Português para os Plásticos lança guia legislativo para embalagens de plástico O Pacto Português para os Plásticos apresentou, em parceria com a Abreu Advogados, o ‘Mapa de Legislação em Matéria de Embalagens de Plástico’, uma nova ferramenta destinada a apoiar as empresas na interpretação e aplicação do enquadramento legal nacional e europeu. O documento resulta de um trabalho de análise e sistematização da legislação aplicável às embalagens de plástico e procura responder à crescente complexidade regulatória que afeta o setor. O objetivo passa por facilitar a adaptação das organizações às novas exigências legais e apoiar decisões mais informadas em matéria de sustentabilidade e economia circular. O ‘Mapa de Legislação em Matéria de Embalagens de Plástico’ foi disponibilizado aos membros efetivos do pacto, reforçando o compromisso da iniciativa em apoiar as organizações na compreensão das suas obrigações e no acompanhamento dos desenvolvimentos legislativos mais relevantes. Segundo Patrícia Carvalho, coordenadora do pacto, ferramentas deste tipo são essenciais para ajudar as organizações a antecipar desafios e identificar oportunidades na transição para uma economia circular. PT2030 disponibiliza 10 milhões para projetos empresariais de I&D As micro, pequenas e médias empresas portuguesas já podem candidatar-se a um novo apoio de 10 milhões de euros do PT2030 destinado a projetos de investigação industrial e desenvolvimento experimental associados a iniciativas europeias de inovação. O aviso é promovido pelo Compete 2030, em articulação com os programas regionais Lisboa 2030 e Algarve 2030. O concurso apoia projetos orientados para o desenvolvimento de novos produtos, processos e serviços, bem como para a melhoria de soluções existentes, abrangendo operações individuais ou em copromoção. O objetivo passa por assegurar o cofinanciamento nacional de entidades portuguesas integradas em programas europeus de I&D, com destaque para iniciativas da Rede Eureka. Podem candidatar-se PME, empresas small mid cap e entidades não empresariais do sistema de investigação e inovação, incluindo centros de investigação localizados nos Açores e na Madeira. O concurso decorre em três fases, terminando a primeira a 30 de junho de 2026. Entre as despesas elegíveis encontram-se aquisição de patentes, construção de protótipos, componentes para instalações piloto e aquisição de equipamento técnico-científico e software especializado. As taxas de comparticipação podem atingir 80% para empresas e 85% para entidades do sistema científico e tecnológico, embora na região de Lisboa o limite máximo seja de 40%. Segundo o ministro da Economia e da Coesão Territorial, Castro Almeida, o reforço da transferência de tecnologia e o estímulo à inovação empresarial são essenciais para promover uma economia “mais competitiva e sustentável” a nível nacional e europeu.
ENTREVISTA 10 ALICIA MARTÍN, DIRETORA-GERAL DA PLASTICS EUROPE IBÉRIA “Temos de repensar o conceito de plástico” Uma mudança de paradigma em toda a cadeia de valor Segundo Alicia Martín, o principal desafio não é apenas tecnológico, mas sobretudo conceptual. “Repensar o plástico” significa reconsiderar o papel deste material na sociedade, apostando em soluções desenvolvidas com princípios de circularidade desde a fase de conceção. A indústria dos plásticos atravessa um momento decisivo na Europa. A convicção é de Alicia Martín, diretora-geral da Plastics Europe para a região ibérica, que defende uma transformação profunda na forma como o plástico é concebido, utilizado e integrado na economia, com vista a garantir a sustentabilidade futura do setor. Num cenário marcado pela pressão regulatória, pelas metas climáticas europeias e por uma crescente exigência social, a responsável considera que a indústria terá de ir além de melhorias incrementais e avançar para uma revisão estrutural de todo o ciclo de vida dos materiais. Nesse sentido, a responsável sublinha a importância do ecodesign, da incorporação de matérias-primas sustentáveis e da criação de sistemas eficientes de recolha, triagem e reciclagem. A Plastics Europe defende uma abordagem sistémica, envolvendo indústria, associações, decisores políticos e consumidores. A circularidade, sustenta Alicia Martín, “não pode depender exclusivamente dos produtores”, exigindo antes uma coordenação global capaz de fechar efetivamente o ciclo dos materiais. Circularidade e competitividade devem avançar em paralelo Outro dos aspetos destacados pela diretora-geral prende- -se com a necessidade de compatibilizar sustentabilidade e competitividade industrial. Embora a Europa procure liderar a transição para uma economia circular dos plásticos, será necessário assegurar condições que permitam
11 à indústria europeia manter-se competitiva face a outros mercados internacionais. Para isso, Alicia Martín considera “essencial um enquadramento regulatório estável, suportado por evidência científica e baseado no princípio da neutralidade tecnológica”. O acesso a energia renovável a custos competitivos e o reforço do investimento em inovação são igualmente apontados como fatores críticos, sobretudo em áreas como a reciclagem avançada e o desenvolvimento de novas matérias-primas. O objetivo passa por criar um modelo em que os plásticos sejam maioritariamente circulares, reduzindo o impacto ambiental sem comprometer a funcionalidade em setores estratégicos como alimentação, mobilidade, construção ou saúde. Inovação e colaboração como motores da transição A transformação do setor dependerá também da capacidade de acelerar a inovação tecnológica. Da reciclagem química à digitalização dos processos industriais, as novas tecnologias deverão desempenhar um papel decisivo na redução das emissões e na melhoria da eficiência na utilização de recursos. Ainda assim, Alicia Martín alerta que ”a inovação só produzirá resultados efetivos se for acompanhada por políticas públicas coerentes e por uma colaboração estreita entre os diferentes intervenientes da cadeia de valor. A cooperação entre setor público e privado será determinante para desbloquear investimento e acelerar a mudança de paradigma”. Uma nova perceção sobre o plástico Para além dos aspetos técnicos e regulamentares, a responsável considera igualmente necessário alterar a perceção pública sobre o plástico. “Apesar das críticas de que tem sido alvo nos últimos anos, o material continua a ser indispensável em inúmeras aplicações industriais e do quotidiano”, sublinha. O desafio, conclui, não passa por eliminar o plástico, mas por utilizá-lo de forma mais eficiente e responsável: “concebê-lo para reutilização ou reciclagem, integrá-lo em sistemas circulares e minimizar o respetivo impacto ambiental”. A visão defendida pela Plastics Europe aponta, assim, para uma transformação estrutural do setor, conciliando inovação, sustentabilidade e competitividade industrial num contexto europeu cada vez mais exigente. n REPRESENTANTE OFICIAL www.gotec.pt | info@gotec.pt PEÇA JÁ O SEU ORÇAMENTO E OTIMIZE A SUA PRODUÇÃO! ▪ ALIMENTAÇÃO ▪ AUTOMÓVEL ▪ ELETRODOMÉSTICOS SISTEMAS DE AUTOMAÇÃO E ROBÓTICA IML LATERAL EQUIPAMENTOS PERIFÉRICOS ALIMENTADOR AUTOMÁTICO ▪ ELETRÓNICA ▪ LOGÍSTICA E CONSTRUÇÃO ▪ SAÚDE SOLUÇÕES PARA AS INDÚSTRIAS DE: MÁQUINAS DE INJEÇÃO TP SMART SM1300 TON CONTROLADOR DE TEMPERATURA
12 EMBALAGEM Reciclabilidade das embalagens continua dependente de falhas no sistema Indústria, inovação e retalho alertam que o desafio já não está apenas no design das embalagens, mas sobretudo na recolha, triagem e capacidade efetiva de fechar o ciclo da reciclagem. Susana Marvão A reciclabilidade das embalagens deixou há muito de ser apenas uma questão técnica. Entre novas exigências regulatórias, sistemas de recolha insuficientes, dificuldades de triagem e a necessidade de alinhar toda a cadeia de valor, o desafio tornou-se estrutural. E obriga indústria, retalho, recicladores e consumidores a trabalharem em conjunto. Uma discussão que ganhou relevância na 10.ª edição da Empack, que promoveu um debate subordinado ao tema ‘Os desafios da reciclabilidade das embalagens’, centrado nas dificuldades que continuam a impedir que muitas embalagens sejam efetivamente recicladas no final do seu ciclo de vida. Na abertura da sessão, Bruno Pereira da Silva, diretor de Sustentabilidade do Polo de Inovação em Engenharia de Polímeros (PIEP) e moderador do painel, resumiu a questão central do debate: “Hoje nós já sabemos como desenhar embalagens recicláveis, já conseguimos produzi-las e colocá-las no mercado. A pergunta central é: porque é que a reciclabilidade continua a ser um desafio?”. Segundo o responsável, o novo Regulamento Europeu de Embalagens e Resíduos de Embalagens (PPWR) veio transformar uma discussão técnica numa questão sistémica, obrigando toda a cadeia de valor a convergir para objetivos comuns. CONHECER O FIM DE VIDA PARA DESENHAR EMBALAGENS RECICLÁVEIS A importância de compreender o funcionamento dos sistemas de reciclagem foi um dos temas mais destacados ao longo da sessão. Milena Parmigoni, especialista em economia circular da Logoplaste Innovation Lab, explicou que a definição de uma embalagem verdadeiramente reciclável começa muito antes da produção industrial. “Para perceber a reciclabilidade de uma embalagem, tínhamos que perceber, antes de tudo, o fim de vida do produto”, afirmou.
13 EMBALAGEM A responsável recordou que os sistemas de reciclagem variam significativamente entre países, obrigando empresas globais a adaptar estratégias e soluções aos diferentes contextos regulatórios e operacionais. “Reciclar na Europa é diferente de reciclar nos Estados Unidos ou no Brasil”. Perante essa realidade, a Logoplaste optou por seguir as guidelines definidas pelos próprios recicladores, “que são quem fecha o ciclo”, explicou. Milena Parmigoni deu como exemplo o trabalho desenvolvido pela empresa em Inglaterra, onde há mais de dez anos participa na criação de circuitos fechados para embalagens de leite em HDPE de grau alimentar, uma das poucas aplicações aprovadas para contacto alimentar na Europa. Além do design, a especialista defendeu a necessidade de participar ativamente na construção dos próprios sistemas de reciclagem. “Criamos embalagens para que os sistemas fechem o ciclo”, resumiu. O PROBLEMA JÁ NÃO É O MATERIAL, É O SISTEMA Também Natércia Garrido, responsável pela gestão da qualidade, ambiente e segurança da Silvex, considerou que o principal problema da reciclabilidade deixou de estar na capacidade técnica da indústria para desenvolver embalagens mais sustentáveis. “Diria que o material já não é o problema desta equação”, afirmou. “É sim o fim de vida que lhe é dado”. Segundo a responsável, muitas soluções ambientalmente vantajosas acabam por falhar porque os sistemas de recolha, separação e valorização continuam insuficientes. “Nós podemos ter a melhor embalagem do mundo, mas se o fim de vida dela não é assegurado, nada funciona”, alertou. Natércia Garrido destacou particularmente o caso das embalagens biodegradáveis, frequentemente apresentadas como solução ambiental, mas que podem gerar novos problemas quando não existe recolha seletiva de resíduos orgânicos. “Esta embalagem vai ser mais prejudicial para o sistema da reciclagem do que se ela não existisse”. A responsável alertou ainda para a tendência de decisões tomadas “de forma emotiva” e sem base científica, dando como exemplo a substituição dos copos de plástico por copos de papel revestidos a plástico. “Tínhamos copos de plástico que podiam ser reciclados e ficámos com copos de papel que não podem ser reciclados”, criticou. Para Natércia Garrido, a sustentabilidade das embalagens só pode ser avaliada através de uma análise completa do ciclo de vida, incluindo impacto ambiental, desempenho funcional e consequências sociais e económicas. UM ECOSSISTEMA QUE PRECISA DE FUNCIONAR EM CONJUNTO A ideia de que a reciclabilidade depende do funcionamento integrado de todo o ecossistema foi igualmente defendida por Pedro Santana, responsável de packaging da Sonae MC. “O problema não está só na embalagem, nem só no sistema, nem só na recolha”, afirmou. “Vai depender sempre de termos embalagens desenhadas para serem o mais recicláveis possível e de existir um sistema de gestão e tratamento.” O responsável considerou que muitas soluções aparentemente sustentáveis acabam por falhar precisamente porque os sistemas de recolha e valorização não acompanham a inovação industrial. Sublinhou ainda que os desafios variam significativamente entre países. O exemplo italiano foi repetidamente referido ao longo do painel como um caso de maior maturidade na recolha de bioresíduos e na integração de bioplásticos nos sistemas de gestão de resíduos. Milena Parmigoni recordou que, em várias cidades italianas, existe recolha porta-a-porta há mais de duas décadas, incluindo resíduos orgânicos e bioplásticos. “É um sistema completo. Eficiente”, resumiu. Natércia Garrido acrescentou que a recolha seletiva de bioresíduos em Itália permitiu reduzir significativamente a contaminação dos plásticos tradicionais, aumentando a quantidade de material efetivamente reciclado. A INOVAÇÃO ACELERA, OS SISTEMAS TENTAM ACOMPANHAR Questionada sobre a capacidade de os sistemas de reciclagem acompanharem o ritmo da inovação, Milena Parmigoni considerou que também a reciclagem está a evoluir rapidamente. “O sistema de reciclagem está a evoluir também”, afirmou, apontando o recurso crescente a inteligência artificial, tecnologias avançadas de triagem, marcadores digitais e reciclagem química. Ainda assim, considera que continua a existir uma lacuna fundamental: a recolha. “O que falta? Recolha, fundamentalmente”, sintetizou. A especialista defendeu igualmente que os próximos anos serão decisivos para reforçar conhecimento técnico dentro da própria cadeia de valor. “O que falta ainda muito é conhecimento”, afirmou. Segundo Milena Parmigoni, será necessário testar continuamente materiais, tintas, colas, etiquetas e combinações de componentes para garantir que as embalagens cumprem efetivamente os critérios de reciclabilidade definidos pelo PPWR. “Testar, testar, testar”, resumiu.
14 EMBALAGEM A INDÚSTRIA JÁ APLICA RECICLADO E PASSAPORTES DIGITAIS Ao longo do painel, a Silvex apresentou vários exemplos concretos de aplicação de reciclado pós-consumo em novos produtos. Natércia Garrido recordou que a empresa trabalha com reciclagem interna desde os anos 90, mas explicou que a perceção sobre o reciclado mudou profundamente ao longo das últimas décadas. “Usar reciclado era quase fazer um downgrade à qualidade do produto”, lembrou. Com a crescente pressão ambiental, a empresa optou por investir numa unidade própria de reciclagem pós-consumo, recolhendo plástico diretamente das grandes cadeias de distribuição e transformando-o em nova matéria-prima. Entre os exemplos apresentados esteve a produção dos sacos utilizados para recolha de cápsulas da Nespresso, fabricados com material reciclado proveniente da própria operação da empresa. Segundo Natércia Garrido, a nova solução permitiu reduzir em 78% a pegada carbónica face à versão anterior produzida com matéria-prima virgem. A responsável revelou ainda que alguns produtos da Silvex já incorporam passaporte digital, através de QR codes que permitem rastrear o percurso da embalagem, identificar a origem do material reciclado e fornecer informação detalhada ao consumidor. “O passaporte digital vai contar a história do produto”, explicou. CONSUMIDORES VALORIZAM SUSTENTABILIDADE, MAS CONTINUAM SENSÍVEIS AO PREÇO Do lado do retalho, Pedro Santana admitiu que a sustentabilidade já influencia as decisões de compra, embora o preço continue a ser determinante para grande parte dos consumidores. “Há consumidores para quem a sustentabilidade é um fator principal”, reconheceu. “Mas a maioria continua a olhar sobretudo para o preço.” Perante isso, a prioridade passa por encontrar soluções sustentáveis que tenham o menor impacto possível no custo final das embalagens. Pedro Santana defendeu igualmente a necessidade de educar os consumidores e combater o greenwashing. “Temos que ensinar o consumidor a ter sentido crítico quando olha para uma embalagem”, afirmou. PPWR VISTO COMO INEVITÁVEL, MAS EXIGENTE Na reta final do painel, os oradores analisaram os impactos do novo regulamento europeu PPWR. Milena Parmigoni considerou que o regulamento já está a transformar profundamente os processos de desenvolvimento de embalagens. “Não há projeto na Logoplaste que não seja acompanhado, desde o princípio, por uma análise da reciclabilidade”, afirmou. Segundo a especialista, os maiores desafios surgem precisamente quando é necessário equilibrar funcionalidade, desempenho e reciclabilidade. “É aí que entra a inovação”. Pedro Santana admitiu alguma apreensão relativamente aos prazos de implementação, sobretudo para pequenas empresas e fornecedores menos preparados tecnicamente. “2030 está aí”, alertou. Ainda assim, considera que o regulamento acabará por trazer benefícios através da harmonização de regras e da criação de sistemas mais robustos de reciclagem. Já Natércia Garrido mostrou-se mais otimista. “Olho para isto como um ponto de partida. Para a responsável da Silvex, o PPWR representa o início de uma trajetória inevitável, ainda que sujeita a ajustes ao longo do caminho. “Todos estamos obrigados a cumprir os mesmos desígnios”, concluiu. n Durante a Empack 2026, quatro especialistas debateram ‘Os desafios da reciclabilidade das embalagens’. Da esquerda para a direita: Natércia Garrido, responsável pela gestão da qualidade, ambiente e segurança da Silvex, Bruno Pereira da Silva, diretor de Sustentabilidade do Polo de Inovação em Engenharia de Polímeros (PIEP), Milena Parmigoni, especialista em economia circular da Logoplaste Innovation Lab, e Pedro Santana, responsável de packaging da Sonae MC. C M Y CM MY CY CMY K
Inovação que molda o futuro. Serviço Pós-Venda Assistência Técnica Peças de Reposição
EMBALAGEM 16 PPWR: Estará a cadeia de valor preparada? O novo Regulamento Europeu de Embalagens e Resíduos de Embalagens impõe metas ambiciosas de reciclabilidade, reutilização e incorporação de reciclado. Na última edição da feira Empack, indústria, reciclagem, ciência, gestão de resíduos e consumidores debateram se a cadeia de valor está preparada para este desafio. Susana Marvão A entrada em vigor do novo Regulamento Europeu de Embalagens e Resíduos de Embalagens (PPWR) está a obrigar toda a cadeia de valor a repensar a forma como produz, utiliza, recolhe e recicla embalagens. Entre metas de reciclabilidade, incorporação obrigatória de reciclado, reutilização e novos critérios ambientais, o setor enfrenta um processo de transformação que vários intervenientes classificam já como inevitável. E profundamente exigente. Foi precisamente este o ponto de partida da mesa-redonda ‘PPWR: a nova era das embalagens | Estará a cadeia de valor preparada?’, promovida pela Associação Portuguesa da Indústria de Plásticos (APIP) no âmbito da 10.ª edição da Empack, Logistics & Automation, onde indústria, reciclagem, gestão de resíduos, sistema científico e consumidores debateram os impactos do novo regulamento europeu.
17 EMBALAGEM Na abertura do debate, o moderador Nuno Aguiar, da APIP, sublinhou que o setor está “a menos de três meses da entrada efetiva da aplicação deste novo regulamento de embalagens e resíduos de embalagem”, defendendo que o PPWR “vai criar uma nova era para o setor das embalagens tal qual conhecemos até à data”. O impacto das novas exigências começa logo na conceção das embalagens. Rui Toscano, diretor de Sustentabilidade e Logística do Grupo Polivouga, descreveu o efeito do regulamento como “profundamente impactante desde a estrutura molecular do produto”. Segundo o responsável, o PPWR introduz duas obrigações estruturantes que terão de ser cumpridas em simultâneo: reciclabilidade e incorporação de reciclado. “Todas as embalagens terão que ser recicláveis a partir de 1 de janeiro de 2030”, recordou, acrescentando que as embalagens que não atingirem determinados níveis de reciclabilidade poderão ser excluídas do mercado. Na prática, explicou, isso está já a obrigar a indústria a abandonar estruturas multicamada tradicionais e a migrar para soluções monomaterial, sobretudo em aplicações alimentares, onde as exigências técnicas continuam elevadas. “A opção técnica foi migrar para estruturas monomaterial, estamos a falar do full PE, do full PP”, afirmou. Ainda assim, Rui Toscano alertou que a substituição não é simples. As estruturas multicamada continuam a desempenhar funções essenciais de barreira ao oxigénio, humidade e odor, além de garantirem propriedades mecânicas necessárias à conservação dos produtos. Também Bruno Pereira da Silva, diretor de Sustentabilidade do Polo de Inovação em Engenharia de Polímeros (PIEP), considerou que o principal desafio não está nos objetivos do regulamento, mas sim “na sua concretização em contexto industrial”. O responsável identificou quatro grandes desafios: a reciclabilidade efetiva das embalagens, a substituição de materiais sem comprometer a função, a incorporação de reciclado em aplicações sensíveis — como alimentar, médica e farmacêutica — e a falta de métricas harmonizadas. “A embalagem por si só não é um invólucro”, sublinhou. “Ela garante segurança, ‘shelf life’ e qualidade.” Sem essa proteção, acrescentou, o desperdício alimentar poderia aumentar significativamente, com um impacto ambiental ainda maior. Bruno Pereira da Silva defendeu ainda um papel mais próximo do sistema científico e tecnológico das empresas, nomeadamente através do desenvolvimento de novos materiais, testes laboratoriais, avaliação de ciclo de vida e projetos-piloto. “O sucesso do PPWR vai depender menos da tecnologia em si e mais da capacidade de ligarmos ciência, inovação, indústria e regulação de forma eficaz”, afirmou. RECICLAGEM: CAPACIDADE EXISTE, RESÍDUOS CONTINUAM A FALTAR Ao longo do debate, uma das ideias mais repetidas foi a de que Portugal dispõe de capacidade industrial de reciclagem, mas continua sem recolher resíduos suficientes para alimentar essa capacidade. A mesa-redonda ‘PPWR: a nova era das embalagens | Estará a cadeia de valor preparada?’, promovida pela APIP, contou com a participação de Nuno Aguiar, diretor técnico da APIP, Bruno Pereira da Silva, diretor de Sustentabilidade do Polo de Inovação em Engenharia de Polímeros (PIEP), Elsa Agante, team leader de Energia e Sustentabilidade da DECO PROteste, Pedro Simões, diretor-geral da Novo Verde, Ricardo Pereira, CEO da Sirplaste, e Rui Toscano, diretor de Sustentabilidade e Logística do Grupo Polivouga.
18 EMBALAGEM Ricardo Pereira, CEO da Sirplaste, afirmou mesmo que as empresas portuguesas de reciclagem “estão no topo” em termos tecnológicos. “Temos das melhores empresas de reciclagem do mundo em Portugal”, garantiu. O problema, acrescentou, é outro: “Todas elas importam matéria-prima para reciclar, porque não temos matéria-prima suficiente em Portugal.” Segundo o responsável, existe atualmente excesso de capacidade instalada face à quantidade de resíduos recolhidos. “As nossas empresas poderiam crescer muito mais, mas não temos matéria-prima suficiente”, alertou. Apesar disso, Ricardo Pereira considera que a qualidade dos resíduos recolhidos em Portugal é positiva quando comparada com outros países europeus. Ainda assim, insiste que a maior intervenção deve acontecer na origem. “A embalagem tem que ser desenhada e pensada para ser reciclada e essa é a maior ajuda que nos poderiam dar”, afirmou. O CEO da Sirplaste deixou vários exemplos de embalagens que continuam a dificultar os processos de reciclagem, desde materiais incompatíveis até pequenos componentes que contaminam os fluxos de reciclagem. Também Pedro Simões, diretor-geral da Novo Verde, apontou a recolha como um dos principais estrangulamentos do sistema atual. “O potencial está na recolha”, defendeu. Recordou também que Portugal investiu fortemente em infraestruturas de tratamento nas últimas décadas, mas que o sistema tarifário e os modelos de recolha pouco evoluíram desde então. “Nós continuamos a pagar os nossos resíduos em função da água que consumimos”, criticou. Pedro Simões defendeu ainda uma maior aposta em sistemas de recolha próprios e complementares, associados a incentivos diretos ao consumidor. “As pessoas têm que sentir efetivamente que têm um benefício em entregar os seus resíduos”, afirmou. CONSUMIDORES DISPONÍVEIS, MAS SENSÍVEIS AO PREÇO Do lado dos consumidores, Elsa Agante, team leader de Energia e Sustentabilidade da DECO PROteste, reconheceu que o sucesso do novo regulamento dependerá inevitavelmente da participação dos cidadãos. A responsável destacou o novo sistema de depósito e reembolso para embalagens de bebidas como uma ferramenta potencialmente eficaz para aumentar as taxas de recolha. “Conceptualmente, é um dos sistemas mais eficazes para aumentar as taxas de recolha”, afirmou, apontando exemplos como Alemanha, países nórdicos e Irlanda. Ainda assim, alertou para vários fatores críticos, sobretudo ao nível da conveniência. “Se não for simples, se for encarado como mais uma tarefa, dificilmente será bem aceite”, afirmou. A DECO PROteste considera igualmente fundamental garantir uma boa cobertura geográfica, evitar falhas nas máquinas de devolução e encontrar um equilíbrio adequado para o valor do depósito. “O valor do depósito também não pode ser tão baixo que não valha a pena estar a depositar”, observou. Questionada sobre a disponibilidade dos consumidores para pagar mais por produtos sustentáveis, Elsa Agante admitiu existir uma diferença entre intenção e comportamento real. “Existe um gap entre aquilo que as pessoas dizem que estão dispostas a fazer e aquilo que realmente fazem”, afirmou. Segundo a responsável, o preço continua a ser o principal fator de decisão na compra, embora os consumidores demonstrem crescente preocupação com a sustentabilidade e maior atenção aos rótulos ambientais. “Havendo uma garantia que não é greenwashing e que faz algum sentido, podem pagar um pouco mais”, reconheceu. O COMBATE AO GREENWASHING E O PASSAPORTE DIGITAL A credibilidade da informação ambiental foi outro dos temas centrais do debate. Bruno Pereira da Silva defendeu que o combate ao greenwashing exige certificação, rastreabilidade e metodologias harmonizadas. Neste contexto, destacou o papel das certificações ambientais, das avaliações de ciclo de vida e das declarações
19 EMBALAGEM ambientais de produto (EPD), considerando que estes instrumentos serão fundamentais para validar alegações ambientais e permitir comparações transparentes entre produtos. Além disso, apontou o futuro passaporte digital dos produtos como uma ferramenta decisiva para aumentar a transparência ao longo da cadeia de valor. “Será fundamental”, afirmou. “Irá prestar informação ao consumidor, às empresas e trazer maior transparência.” Apesar dos desafios, Bruno Pereira da Silva acredita que o PPWR pode transformar-se numa oportunidade para reforçar a competitividade europeia e portuguesa. “Quando colocamos os produtos no fim de vida nos sítios corretos, temos capacidade e competência para os transformar em matéria-prima”, defendeu. REUTILIZAÇÃO DIVIDE SETOR Na reta final do debate, Rui Toscano voltou a intervir para abordar uma das dimensões mais polémicas do PPWR: as metas de reutilização para embalagens de transporte. No seu discurso, classificou o regulamento como “um tsunami regulatório”, embora reconheça os benefícios associados à obrigatoriedade da reciclabilidade. Ainda assim, considera que as metas de reutilização previstas para embalagens flexíveis criam um “paradoxo tremendo”. Segundo Rui Toscano, os sistemas obrigatórios de reutilização podem, em determinados casos, gerar um desempenho ambiental pior do que soluções recicláveis de utilização única. Citando estudos da OPC e da Deloitte, o responsável afirmou que estes sistemas poderão representar custos entre “4,9 a 6 mil milhões” de euros para a indústria europeia e gerar uma pegada carbónica significativamente superior. “As embalagens flexíveis não podem ser reutilizadas porque perdem a sua função”, argumentou. Apesar das divergências e das dificuldades identificadas ao longo do painel, o consenso final foi claro: o sucesso do PPWR dependerá da articulação entre todos os intervenientes da cadeia de valor, da indústria ao consumidor, passando pela ciência, reciclagem e gestão de resíduos. “Só assim conseguiremos atingir estes objetivos”, concluiu Nuno Aguiar no encerramento da sessão. n >> Receção| Armazenamento| Transporte| Dosagem de líquidos e sólidos | Mistura| Automação info@coscollolaengineering.com | www.coscollolaengineering.com Soluções chave na mão e design à medida >> TUDOo que vê aqui nós resolvemos Visite-nos no Hall 3 | Stand C72
EMBALAGEM | OPINIÃO OPINIÃO DA DIRETORA DO CENTRO NACIONAL DE EMBALAGEM 20 PPWR, um caminho definido para as embalagens, mas com muitas questões em aberto Margarida Alves, Diretora do Centro Nacional de Embalagem (CNE) A sucessão de notas interpretativas emitidas pela Comissão Europeia é um sinal claro de que a legislação, tal como foi publicada, não está a ser suficientemente precisa para quem a tem de aplicar. No universo alimentar, onde cada detalhe conta, a falta de clareza é um risco real. Dar resposta ao PPWR tem sido um desafio enorme para o setor das embalagens. O regulamento exige uma mudança estrutural, e não apenas pequenos ajustes. A Europa definiu metas ambiciosas, os consumidores exigem mais responO setor das embalagens em Portugal vive um dos períodos mais desafiantes das últimas décadas. Entre metas ambientais cada vez mais exigentes, pressão para reduzir desperdício e a necessidade de garantir segurança alimentar absoluta, seria natural esperar que o quadro regulamentar europeu oferecesse clareza e estabilidade. No entanto, o que está a acontecer com o Regulamento (UE) 2025/40 (PPWR – Packaging and Packaging Waste Regulation) revela precisamente o contrário.
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